Friday, December 22, 2006

Dream Theater 4...

Sonho? Até achei que fosse. Mas os gritos na minha cabeça me faziam perceber que era o dia do meu julgamento. julgar uma pessoa que se defendeu, apenas, é um absurdo. Eu matei, chorei, sofri, mas foi pela minha vida. Por amor a ela.
O advogado me alertara sobre todas as possibilidades. Mas, naquelas sessões, eu só tive uma surpresa.
JP, entrando como testemunha da promotoria, me olhando com o olhar mais sujo do mundo. A minha amizade com ele havia esfriado e muito após o meu namoro com o Pablo. Mas não ao ponto de ele testemunhar contra mim.

Agora sim eu entendia que o que todos diziam era verdade. Eu gostava mesmo dele. Ele testemunhou contra mim, disse no depoimento que eu era mimada, agressiva, irônica e pirracenta. E que a paciência do ser humano é esgotável. O juiz, pela graça de alguém que eu não sei o nome, me absolveu. Entendeu que o que eu fizera fora sem intenção. Mas eu nunca ia entender porque o JP fizera aquilo. Nunca.

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Mudei-me para o Jardins. Era mais próximo ao teatro onde estava trabalhando.

- Eu não suporto mais ensaiar. Quero logo começar a apresentar.
- Calma, Sophia. Você é muito apressada. E além do mais, você ainda não está preparada. - disse-me a Fê.

Lancei um olhara a ela, do estilo "Do you want to die?", de Angelina Jolie, e ela logo explicou-se.

- Ah! Nem me olhe assim. Você sabe que é uma excelente atriz. Talvez a melhor desse grupo. Mas os laboratórios ainda não terminaram. Se transformar em assassina assim, não é brincadeira. É algo que eu acho que tem que se passar por isso. - falou ela, nem imaginando o que eu já passei.

- E o JP vai participar, mesmo? - perguntei.

- Vai. Ele vai te ajudar a sair do crime. Ele vai ser seu salvador.

Saturday, December 16, 2006

Dream Theater 3...

Você pode achar que é mentira, mas eu não gostava de gostar da maneira como ele me tratava. Essa babação de amigos me deixava confusa em relação às intenções dele. Decidi que não deveria sentir essa atração e que eu poderia muito bem destinguir o que é amizade, o que é atração e o que é amor. Eu achava que sentia amor, mas era atração e me obrigaria a saber que é amizade.
Comecei a namorar. Retomei um namoro antigo. Pablo. Gostava dele. Gostava. Gostaaaaava. Particípio passado do verbo gostar (na verdade, nem sei se é particípio passado), não presente. Mas eu era uma atriz, não? O Pablo sempre gostou do meu jeito, dos meus olhos, dos meus cabelos. Eu sempre gostei do jeito como ele me tratava, do jeito que pegava meus cabelos e cheirava, do jeito como ele me olhava. Eu sei que sem a pessoa, o jeito não é nada, mas, pra mim, o Pablo era só um jeito. Não uma pessoa que carregava uma personalidade. Era como um personagem e eu não prdcisava de mais UM.

- Pablo, quero falar com você - disse, quando completávamos um mês do re-namoro.
- Diga, meu anjo.
- Não sei se é isso que eu quero... Tenho medo de machucar alguém. Você sabe que eu estou tentando retomar o nosso namoro, que tenho vontade, mas que não posso afirmar que dará certo, né? - falei isso com o maior cuidado.
- Claro que eu sei disso. MAs deixa eu te lembrar uma coisa. Nunca demos certo, porque você nunca quis dar certo. Mas agora é diferente... Você quer. - pegou minhas mãos, beijou o peito delas, me olhou e beijou-me a face.

Eu queria, por um momento, dizer a ele que nada daquilo era verdade. Que ele estava fantasiando algo que não existia... Mas, então, eu acordei e percebi que não era ele quem fantasiava. Era eu que o fazia acreditar que nosso namoro amoroso e estável seria possível outra vez.

OBS.: Pra mim, namoro estável é sinônimo de chatice. Bom mesmo, é amor que dá voltas. Que termina, que volta, que briga, que chora... Que muda.

Eu sei que no fim das contas, eu conseguia namorá-lo e lembrar do JP sempre. Eu o beijava pensando no JP, jantávamos e eu via o JP na minha frente, estávamos um dentro do outro, e eu estava dentro do JP. Não dava mais pra ser assim. Tinha suportado isso durante 8 meses... Isso! Há oito meses eu estava com o Pablo, sem reclamar. Aliás. Sem reclamar, sem ter opinião, sem decisões, sem vida. Apática.
Ele se mostrou, com o tempo, uma pessoa agressiva. Quando eu tentava impôr algo, ele agia com rispidez; me maltratava. Começava a me dominar com aquele jeito bruto. Terminava que eu tinha medo de dizer algo e levar uma patada. Porque ele era um cavalo.

- Pablo, eu não quero ir. É uma festa de gente chata, música chata, ambiente chato. Não quero ser chata também, mas a ir em um lugar desagradável como esse, eu prefiro ficar em casa. - impus minha decisão. Sutilmente, mas impus.
- Mas você não tem querer. É a festa de 68 anos do meu pai, e você vai ter de ir. Me acompanhar, meu amor. - falou-me com um ar feio.
- Mas eu já me decidi. Você pode ir sozinho, eu não vou ligar. Você pode ir. Eu vou ficar aqui em casa. Meus pais foram ao cinema e já devem estar voltando.
- Vai se arrumar, Sophia.
- Não vou.
- Estou ficando estressado. - me disse, cerrando os dentes, olhando-me como se fosse me matar.
- EU não vou. - falei, cerrando os dentes, olhando-o como se fosse uma arma.

Me puxou pelo braço, me jogou no chuveiro gelado. Eu reagi. Empurrei-o com os pés, corri pro banheiro do quarto dos meus pais. ME tranquei. Ele arrombou a porta. Me segurou firmemente pelos braços e me gritava como se estivesse possuído. Eu chorava desesperada... Pensava que ia morrer. Corri do quarto para a cozinha, atrás de algo que pudesse intimidá-lo. Só achava coisas que pudessem matá-lo e isso eu não queria. Ele me jogou na mesa da cozinha, queria me ter. Não! Não! Eu não deixaria alguém tão sujo me agarrar e tirar minha roupa como se eu fosse um animal. Ou pior, um objeto. Pra ele, era isso que eu deveria ser.

Me jogou de costas na bancada ao lado da pia. Dentro dela, havia uma faca grande. Chorando, sofrendo e arrancando toda a raiva que eu tinha, segurei a faca com força e, com a mão ereta girei-a pra trás para assustá-lo. Consegui assustá-lo. Seus olhos estavam esbugalhados... Vermelhos como os de um lobo... Minhas mãos também estavam vermelhas, mas não era ilusão... Era sangue! Ao virar, ele veio ao meu encontro com a calça desabotoada e pronto pra me atacar... A faca passou amolada e certeira pela sua jugular... Se eu quisesse acertar, não acertava! Mas abriu um mar de sangue que se espalahava por todo meu corpo... Um sangue sujo e grudento, que me rotulava uma assassina, mesmo sem culpa, mesmo sem intenção.

Naquela noite eu ficaria acordada. Meus pais me ofereceram ajuda. Que eu fosse até a delegacia e relatasse tudo o que houve. Que eu jogasse minha carreira pelo ralo... Que eu simplesmente chegasse na delegacia; que visse um escrivão, um delegado, alguns depoentes e eu... " Delegado Ponte, eu tenho um depoimento a fazer. Eu assassinei meu namorado a pouco."

Thursday, December 14, 2006

Dream Theater 2...

- "E que abram as cortinas... O espetáculo vai começar!" - Ficou bom?
- Acho que não... Isso é mais usado em circo. Você vai apresentar um monólogo - falou o JP.
- JP, não começa com estereótipos, por favor. O monólogo não é meu? Então, eu posso fazer o que quiser, sem me preocupar com o que vão pensar, ok? - disse, numa pergunta afirmativa.

Ele me olhou com cara de quem diz: "se não queria opinião, pra quê perguntou?". Mas eu não liguei. Ele sempre fazia aquela cara, mesmo.

- Acha melhor eu começar pela prostituta? - perguntei e o vi fazendo a mesma cara - Tá bom, tá bom... Desculpa, vai! Eu estou nervosa. Não vou mais desdenhar da sua opinião. Prometo.

E fiz aquela cara que toda mulher sabe fazer... Ele não resistiu. Quem resistiria?=P

Ensaiamos a tarde inteira naquele teatro mal feito, escuro, mal cheiroso e insuportável. Mas eu estava ali com o meu melhor amigo, ensaiando a minha primeira peça, meu primeiro monólogo, minha primeira apresentação financeira. Mas o real objetivo era a minha realização interior. JP me acompanhava em tudo. Lanche, teatro, cinema, faxina... Tudo. Eu o conheci na faculdade e viramos grandes amigos. Ele esbanja charme e simpatia... Nunca tivemos nada. NEm um beijinho. A mente maliciosa dos humanos sempre dizia que ele era "a fim" de mim, ou eu dele. Mas de onde vem a expressão "estar a fim de"? Vem de "finalidade"... E eu não quero ninguém que me veja como final. Lógico que a finalidade que a expressão exerce nas frases (ou nas cantadas...) é algo bom. Tipo, "estar a fim de" é ter aquilo como objetivo, finalidade. Mas eu não quero isso pra mim. Quero que alguém se apaixone por mim de verdade. Quero um caminho inteiro percorrido pra mim e não apenas uma finalidade.
Mas, voltando ao JP... Ele é a melhor coisa que poderia ter me acontecido.

- Sophia, você acha que eu posso fazer algo com você na nossa próxima peça? - falou JP.
- Acho que sim. Você tem talento. E eu sou uma estrela, né? Aqui nesse palco cheio de insetos, eu sou uma estrela. Ai, JP, queria que você me acompanhasse nesse de agora. Sinto tanta falta de você... Você me acostumou mal indo a todos os lugares comigo! =P
- Pára, né? Você consegue e sabe disso. Faltam exatemente 8 minutos e 57 segundos pra aquela cortina se abrir e você começar a se apresentar. Você é a melhor atriz da universidade e vai arrasar. Vamos ver se você vai ficar nervosa com isso...

Chegou mais perto e me beijou. Na boca. Juntou seus lábios aos meus, e num toque aveludado passou a sua língua suave perto da minha e começamos um beijo bom.

- Tá vendo? Sem nervosismo? Eu sou seu melhor amigo e você não ficou nervosa quando eu te beijei. Não vai ficar com mais nada. - disse ele, segurando minhas mãos.

Eu ri. Por um segundo achei que ele me amasse como mulher, não como amiga. No segundo seguinte, acordei.Não sei porquê ele fez isso, mas eu sei que eu gostei... E fui pro palco flutuando.

1 - Prostituição

- Prostituta? Sim, e porque eu gosto. Não pelo dinheiro, não por necessidade, não por pressão. Eu gosto de ser desejada, de ser maltratada, de ser o centro das atenções. Eu acho que as pessoas devem ser o que gostam e eu vim pra São Paulo ser prostituta. Algumas pessoas já me perguntaram porque eu não recusava o dinheiro, então? Não. Nunca. Isso é um trabalho. COm diversão e prazer, claro. Mas o advogado também gosta do que ele faz, a médica também, o empresário também. E nem por isos abrem mão do dinheiro que ganham no fim do mês.

Sentei no palco e abri as pernas. Senti que o JP olhou mais fundo.

- Um dia conheci o homem da minha vida. Bonito, trabalhador, honesto, gentil, inteligente. Sempre saía comigo. Numa noite, me disse que queria ficar comigo de verdade. Eu amei isso! Tínhamos tudo a ver, combinávamos... Até o dia que ele me disse que ía me tirar "dessa vida". Que vida? Ser prostituta pra mim era um sonho de criança e eu não via porque deixar o emprego. Seria difícil pra ele, sim! MAs por isso eu achei que ele fosse o homem da minha vida... PEnsei que ele aceitasse o meu emprego. Mas, não... Nunca mais nos vimos. E ele não era o homem da minha vida. Ele não era perfeito.

*****

- Você estava ótima! Como nos ensaios! Ficou tudo ótimo! Naquela hora que vc abre as pernas e senta no chão... Pensei que o povo fosse cair das cadeiras. - comentou JP.

Eu pensei: "não é só porque você quase caiu, que todo mundo tinha de cair!".
MEu deus! O que eu estou fazendo? Falando como se ele fosse " a fim" de mim... Que doente!

- Vamos jantar? Descobri um lugar escondido no shopping que é uma beleza!
- Onde? - perguntei.
- Ahhh! Surpresa! - disse ele olhando pra mim - E eu sei que você adora surpresas! Não precisa dizer, eu observo...

Eu começava a gostar daquilo... Os olhares, os jantares, as observações... Não que nunca tivesse acontecido isso antes, mas de uns dias pra cá eram diferentes. MEu deus, eu não queria que isso acontecesse, mas ele estava se apaixonando por mim... E eu parecia não sentir nada. Mas eu sentia. Eu sei que sim... Mas ele era o primeiro menino que eu não sabia dizer o que estava sentindo. Eu apenas sentia. E não expressava isso.

Dream Theater...

Hoje eu vou começar um novo projeto. ALgo que vai me fazer parar de olhar pra tela do computador e não ter nada além do msn, google e orkut. Bom, eu sei que ninguém lê isto que eu escrevo e isso realmente não me importa. Claro que eu gostaria que lessem, mas os meus personagens interiores todos leêm e gostam do que eu escrevo. Interessante... Não é nenhum tipo de egocentrismo, nem narcisismo... Eu apenas me basto. Lógico que eu não estou dizendo que não preciso de ninguém pra sobreviver. Estou falando da leitura de um blog. E é justamente disso que eu vou falar. Não da leitura do meu blog, e sim, dos meus personagens interiores. A partir de hoje farei algo que muita gente já sonhou: uma odisséia pela minha mente...

Wednesday, June 14, 2006

A rua

Estava caminhando lenta e desesperadamente pela rua 13, após presenciar a morte do Sol. Aquilo sempre me trazia o desespero. Por mais que eu estivesse mais segura quando ele se evaía do céu, saber que o Sol morria todos os dias apenas para me deixar feliz me deixava atônita. Então os pedregulhos ficavam cada vez mais fundos e meus pés já não suportavam a dor que era andar de sapatos altos. Será que eu começava a ficar fraca?
E começava a ouvir passos distantes, que me aproximavam de um terror que não era o meu. Ouvia sussuros que penetravam meu ouvido, me deixando maluca... Uma menina me olhava com expressão de medo. À medida que eu me aproximava ela sussurrava mais, mas aquele som baixo me deixava silenciosamente surda. Até que eu pude ver o que ela segurava nas mãos. Um cordão velho, carregando um pingente de ouro maciço também desgastado, mas que ela segurava firme e ferozmente.
Ao reparar sutilmente o pingente, vi que parecia um que a minha irmã carregava antes de morrer. Nas fotos que eu vi do seu caixão, dava para perceber nitidamente que ela morreu apertando o ouro que ali havia. Mas como esse ouro poderia estar nas mãos dessa menina? Minha mãe morrera a facadas. Meu pai a violentou e matou-a sem deixar rastros. Eu vi toda a cena, antes do sol se pôr e a partir desse dia, permaneci em silêncio. Não falava enquanto o Sol não fosse embora. Não falava enquanto houvesse Luz.
To be continued...

Thursday, January 05, 2006

Coisas...

Às vezes, nós pensamos sobre coisas que não são controladas por nós. A morte é uma delas. Nós não escolhemos morrer, nem sabemos como é isso, mas pensamos nisso a todo momento. A morte é um fascínio, algo que nos deixa curiosos, encantados, amedrontados, enfim... Não importa o que esse tema nos traga, o que importa é que um dia ele vem e devemos estar preparados para isso.

Acho que vocês deveriam ler o texto da Lígia Fagundes Teles, "Venha ver o pôr-do-Sol". Este texto é simplesmente FANTÁSTICO! Velerá à pena...

Fascinação

- Ele não vem, não é? - perguntei aos criados, mas já sabendo a resposta. Deitei-me na cama, onde esperava a chegada dele. Ao confirmar que ele não viria, apenas aguardei o que me esperava.
Estava ali, deitada naquela cama, esperando a morte chegar, com a terrível sensação de que ela já estava vindo. Então, dormi. E isso era o que eu menos queria naquele momento. Eu fechava os olhos, com sono, mas gostaria de impedir a sonolência dos meus olhos, porque pensava que ao dormir, morreria. E não voltaria aos braços dele nunca mais.
Mas eu não morri, pelo contrário. Acordei com grandes olhos me observando, os olhos da minha salvação.
- Por quê você fez isso, Flávia? - perguntou-me ele.
- Isso mudaria alguma coisa? Você veio! Eu pensei que nunca mais o veria...
- Você não pensa nos outros? Por quê você fez isso? Eu tenho o direito de saber! - gritava ele, naquele quarto onde só existia eu e a sua alma.
Agora já está feito, Antônio. Eu não posso mais voltar atrás. Mas não me arrependo, eu juro. Só em tê-lo aqui mais uma vez, eu já me sinto melhor. Mais aliviada.
Ele chorava. As lágrimas o abandonavam, como se ele que estivese à beira da morte.
- Eu te amo, Flávia. Mas vc não pensa nos outros, acha que sempre está certa! Por quê tomou esta droga de remédios? Por quê? Eu estoua qui agora, pior do que você" Eu não sei se você sabe, mas daqui há algumas horas você vai estar morta, e eu aqui... abandonado pelo seu egoísmo!
Aquelas palavras me tocaram como se fossem a própria morte. Eu tomara remédios após o término do nosso namoro, que para mim, era tudo. E o médico me avisara que eu só tinha lagumas horas de vida. Nada mais. E a pessoa que eu mais amava estava ali, na minha frente, me pedindo para desfazer algo que já não estava mais nas minhas mãos.
- Me desculpe! Eu não pensei antes de fazer isso, mas agora já está feito! APENAS ME PERDOE...
Ele não me disse mais nada. Tirou do bolso uma seringa, e chorando, injetou-se. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas quando vi o seu corpo se debatendo no chão do meu quarto, entrei em profundo desespero. Tentava gritar por ajuda, mas a minha voz não saía. Ele acabara de fazer o que eu tinha feito em poucoas horas. Só que ele estava agonizando na minha frente. Morrera, e eu estava ali vendo tudo, vendo a razão da minha existência ir embora em questão de segundos.
Os médicos vieram, levaram seu corpo e me consolaram. Eu só estava mais tranquila, porque sabia que em pouco tempo, eu estaria de volta no calor do seu corpo. Eu me encontraria em seus braços novamente, ainda que eles não tivessem matéria, apenas a alma.

Pedi que me dessem um sonífero, e eles me atenderam.
Ao acordar, percebi que eu não estava junto ao seu corpo, como eu imaginava. Estava na mesma cama, onde gritava enquanto ele agonizava. Alguém me disse que eu não iria mais morrer, que eu passei por um processo de lavagem, que me salvaram da morte. E aquilo em afundou em uma imensa tristeza. Saber que eu não iria encontrar o Antônio me depressiava a tal ponto, que eu me enxerguei em um mundo só meu. Mas logo tive que voltar a realidade. Os médicos me informaram que eu estava grávida. Eu?! Naquele instante eu não soube o que pensar. Por um momento da minha vida eu senti como se nem a minha carne, nem o a minha alma estivessem comigo ali, que todos teriam me abandonado. Eu não sabia o que iria fazer comigo.

Após o susto de tantas informações insanas, eu resolvi ter minha filha. Só pr causa do meu amor pelo Antônio. Eu sentia na minha filha a presença dele. Sentia nela o brilho que ele tinha nos olhos, a maciez das suas mãos e o calor das suas palavras, ainda que, minha filha, Alice, não falasse.
Algum dia, eu estava sentada com ela, olhando algumas fotos antigas. Ela já tinha cinco anos, estava esperta e linda! Linda como o pai! Nunca a contei sobre o seu pai, nunca falei que ela tinha um pai. Nem ela tinha me perguntado ainda.
Estávamos ali, olhando aquelas fotos cobertas com a poeira do tempo, quando ela achou, escondida entre vários cartões postais, uma foto do Antônio. A única foto que eu tinha dele, mas nem eu mesma sabia onde estava.
- Mamãe, quem é esse homem? - perguntou-me ela, coma voz mais suave e mais delicada que já ouvira.
- É um velho amigo da mamãe... Um amigo. - respondi.
Ela, tão inocente e ingênua, continuou a brincar com a sua boneca de louça. Cantava uma música para ninar o pequeno brinquedo e olhava para a foto, sorrindo. Até que, em meio a canção de ninar e aos risos que ela soltava, ela me disse:
- Sabia que ele conta histórias pra eu dormir toda noite?

Tuesday, January 03, 2006

O início...

A pessoa que me fez criar esse blog nem sabe que é inspiração para um monte de besteiras que serão escritas... nem nunca vai saber... eu nunca irei contar.
O que importa é que é o meu primeiro dia de blog e eu tenho que fazer algo interessante...
Começaremos com a história do menino de botas vermelhas...
Eu não sabia bem o nome dele, mas sabia que ele tinha olhos lindos. Eu o amava e só conseguia olhar para aqueles olhos, que me transmitiam a vontade da morte, mas que me levava ao transe que era estar perto dele. Não sei porquê, um dia, resolvi perguntá-lo o que ele sentia por mim. E ele, parou na minha frente, olhou dentro de mim e disse: "Eu sinto pena". Não entendi ao certo porque ele sentia pena de mim, já que não nos conhecíamos, nem falávamos nada um ao outro. Mas, ainda assim, eu resolvi caminhar ao seu lado e te doar alguns conselhos.
Conversamos ainda por uns vinte minutos e ele, no meio do nada onde estávamos, começou a chorar. Por que ele chorava? Porque ele vira em mim o que eu realmente era, o que eu sempre fui pra ele. Entao, o "eu" de antes e o novo "eu" gritavam e se degladiavam para o garoto das botas vermelhas, a tal ponto, que ele chorava sem parar. Você não entende porque ele chorou, mas eu sabia exatamente o motivo das lágrimas. Ele vira em minhas costas crescer as asas negras, vira em meu olhar o reflexo das chamas e vira em seu corpo a ardência do medo. Caíra no chão, naquele exato momento, por vontade própria. Morrera nas flores por vontade minha. Pois quando ele me destratou, eu tormei-me o fruto da sua indiferença... e assim, provei a ele que quando o mal surge, volta pra ficar.